Nuno Alvares

Morte da Princesa de Lamballe, dama de corte da Rainha Maria Antonieta, assassinada

Santo do Dia, 12 de novembro de 1970

Plinio Corrêa de Oliveira

Maria Luísa Teresa de Saboia (Turim, 8 de setembro de 1749 – Paris, 3 de setembro de 1792), mais conhecida como Princesa de Lamballe

Podemos ler uma ficha relativa ao ódio revolucionário e que é a morte da Princesa de Lamballe. Ela foi uma das vítimas mais célebres da Revolução Francesa.

Pessoa de muito destaque na Corte da França, era aparentada com a Casa Real e era conhecida pela sua boa conduta moral, pela virtude de que tinha dado mostras e pela predileção especial também de que ela gozou, durante algum tempo, da parte da rainha Maria Antonieta.

Acontece que, em determinado momento, Maria Antonieta separou-se da Princesa de Lamballe e esta foi viajar e passou uma temporada grande em Londres.

Arrebentou a Revolução Francesa, e ela sentindo que a rainha começava a entrar num ciclo de desgraças, julgou sua obrigação sair de Londres onde estava, para associar-se ao destino da Rainha, embora tivesse essa queixa do fato da rainha ter-se distanciado dela. E morreu vítima da dedicação que tinha tido à rainha.

A morte dela foi uma das mais atrozes que houve durante a Revolução Francesa. Morte atroz, é bem verdade. Morte totalmente imerecida, eu não ousaria dizer. A Princesa de Lamballe, como muitos nobres daquele tempo, provavelmente ignorando o que havia de ruim na maçonaria, aceitou a dignidade de grã-mestre da maçonaria francesa; enquanto o cunhado dela, o duque de Orléans, era o grão-mestre da maçonaria francesa.

Maria Antonieta sabia que a Princesa de Lamballe era grã-mestre da maçonaria, e aprovava esse fato.

A tal ponto, que vi mais de uma vez em livros, uma carta de Maria Antonieta interessando-se pelas obras de caridade que a maçonaria estaria fazendo e felicitando a princesa pelo êxito da ação caritativa da maçonaria.

Os senhores sabem que essa ação caritativa não passa de uma tapeação e que de fato a maçonaria promove a destruição da civilização cristã, tendo como vistas últimas a destruição da Santa Igreja Católica. A maçonaria é “a sinagoga de Satanás”, como dizem os Papas.

Os senhores me dirão: que culpa tinha a princesa de Lamballe pelo fato de ser grã-mestre da maçonaria, uma vez que ela ignorasse que a maçonaria é “a sinagoga de Satanás”?

Tinha culpa, porque havia já dois documentos pontifícios publicados e condenando
– um bastante tempo antes, sendo que sua morte se deu em fins do século XVIII, o documento a que eu estou aludindo é de mil setecentos e trinta e tantos -, proibindo ais católicos que entrassem na maçonaria e explicando o mal que nela havia.

É verdade também que as coisas não eram tão simples assim. Porque se é exato que a maçonaria estava condenada, as autoridades eclesiásticas manifestavam um extraordinário relaxamento no proibir a atuação da maçonaria.

E havia grande número de sacerdotes oficialmente maçons. De maneira que se podia ter a impressão de que estas condenações tinham caído em desuso em virtude de entendimentos confidenciais que teria havido – de fato não houve – entre a Igreja e a maçonaria!

Os senhores compreendem que o caso não é simples de elucidar. Mas é sempre uma mancha.

Esta morte, cruel e bárbara como os senhores verão, foi ao mesmo tempo uma morte que revelou a abnegação dela, e que lhe terá sido uma punição. A abnegação e a punição, ambas recebendo na morte a sua recompensa. Sua morte tem algo de um martírio e neste sentido ela é sublime. Ela tem algo de punição e nesse sentido ela é lindíssima. Uma pessoa pode ser castigada recebendo o martírio.

Foi o que aconteceu com São Tomás Becket, por exemplo, que recebeu a comunicação de Deus que ele morreria assassinado pelo rei da Inglaterra, como punição pelo fato de ele ter recebido a dignidade episcopal sem vocação.

Ao mesmo tempo, como ele era morto pelo fato de ele se manter fiel aos princípios, acontecia que ao mesmo tempo recebia no martírio a palma e a punição, ambas as coisas juntas. Hoje é venerado na Igreja Católica como um santo de altar.

Estou longe de dizer
com isso que a princesa de Lamballe possa ser venerada como santa de altar. Não há sintomas disto. Eu não disse que a morte dela foi propriamente um martírio, mas que tem algo do martírio.

Quer dizer, ela morreu por encarnar princípios, tradições e instituições que o ódio satânico da Revolução queria destruir. E neste sentido, teve algo de martírio. Teve algo de martírio também porque expôs sua vida para cumprir os seus deveres de dedicação para com a rainha. Mas até que ponto havia nisso espírito sobrenatural, que caracteriza o mérito do martírio, é coisa historicamente discutível.

Isso não deixa de tornar infame o crime praticado contra a pessoa dela pela Revolução
. O texto que tenho a comentar é o seguinte:

“A Princesa se tinha indisposto pelo alvoroço dos assassinos em Paris” – tinham assassinado muita gente etc.

“Sonhos terríveis lhe tiraram a possibilidade de dormir e ela, que já estava presa, foi subitamente obrigada a seguir os assassinos até uma das prisões chamada Abadia. Estava tão fraca que apenas podia levantar-se e pediu que a deixassem onde estava. Preferia morrer ali do que em qualquer outra parte.

“Um dos assassinos que devia levá-la, inclinou-se sobre ela e lhe sussurrou no ouvido que obedecesse. A sua salvação dependia disso.

Então, ela pediu àqueles homens que a deixassem só um instante para que ela pudesse se vestir.

Logo depois, ela aceitou o braço de um soldado, porque ela não podia se sustentar e foi levada de seu aposento ao tribunal que funcionava na prisão da Abadia, o qual era dirigido por Hébert e Louilière [?]”.

Jacques-René Hébert (1757-1794)

Hébert era uma das feras mais famosas da Revolução Francesa.

“Quando viu as espadas desnudas e os assassinos todos manchados de sangue, e ouviu também o clamor das vítimas, ela caiu desmaiada. Sua camareira, Mme. de Navarre – sua dama de companhia aliás – fê-la voltar a si com dificuldade. Logo começou o julgamento.

“Quem sois? Perguntaram.

“- Maria Luiza, Princesa de Sabóia”.

Ela era nascida italiana – Princesa de Sabóia, casada com um Príncipe francês.

“- Qual é seu emprego?
“Diz ela: – dama de honra da rainha.
“- Tivestes conhecimento da conspiração da Corte no dia 10 de Agosto?
“Resposta dela: – eu não sei de que em 10 de Agosto tenha havido qualquer conspiração. Mas eu sei dizer que eu nunca ouvi falar de semelhantes coisas.
“- Jurais ser fiel à liberdade e igualdade e jurais ódio contra o rei?
“Diz ela: – eu jurarei de bom agrado as duas primeiras coisas: liberdade e igualdade. A última eu não posso jurar, pois que meu coração contradiz a semelhante juramento.

“Um dos que estavam por detrás dela lhe sussurrou no ouvido: – entretanto, jurai, senão vós estais morta.


“A Princesa não respondeu e deu um passo em direção à porta. O juiz exclamou: – levem essa senhora à Abadia.

“Os carrascos que estavam lá acorreram e a porta abriu-se diante dela. Gritaram: – Viva a Nação!

“Ela, ouvindo esses berros e ao mesmo tempo vendo os assassinos e os cadáveres, exclamou: – Meu Deus! Estou perdida!

“Neste instante recebeu uma ferida na cabeça que encheu o seu rosto de sangue.

“Um dos homens que ali estavam a jogou no chão e os outros a traspassaram com lanças e espadas. Seu belo corpo foi imediatamente desnudado e mutilado do modo mais afrontoso. Um daqueles monstros comeu o coração dela.”

É uma coisa absolutamente demoníaca! A ferocidade do homem não chega até lá, apesar do pecado original e tudo. Isso é do demônio!

Depois, os senhores estão vendo o conjunto das coisas: uma mulher enfraquecida, inocente e que é morta por esta forma, e um sujeito que arromba, por assim dizer, o peito dela para arrancar o coração para comer.

(Aparte: Um detalhe curioso é que ela sendo muito favorável a ajudar os pobres, depois de morta o coração dela foi levado e apresentado nas casas dos pobres que ela sustentava, para mostrar a eles o coração que os tinha amado. E depois é que o comeram)

Que coisa pavorosa! Não tem palavras! Se isso não caracteriza o demônio, então não há caracterização do demônio. A meu ver, essas coisas bastariam para provar, ou ao menos deixar o espírito humano sumamente propenso à ideia de que existe o demônio.

“E quando comeu o coração dela, disse que não havia prato mais gostoso do que este. A cabeça, cuja face estava enobrecida pela morte, foi primeiro colocada como espetáculo da massa numa taverna e se brindou à morte dela.”

Os senhores podem imaginar a cabeça de uma morta, colocada numa taverna e todo mundo rindo e brincando e bebendo à saúde dela…!

“Logo foi colocada sobre uma lança que foi coberta por seus formosos cachos louros, e ela foi levada pelas ruas e pelas casas onde tinha vivido e tinha visitado a miúdo, como se a morta ainda pudesse ter um sentimento por isso.

“Um cabeleireiro aproveitou a ocasião, para cortar da cabeça alguns de seus mais belos cachos.

“Subitamente se disse entre a canalha, que se devia mostrar a cabeça aos prisioneiros do Templo, para que vissem de que modo se vinga o povo de seus inimigos”.

Os prisioneiros do Templo eram o rei e a rainha, que estavam presos na torre do Templo.

“O rei foi então convidado a mostrar-se ao público e então puseram diante dele a cabeça de Mme de Lamballe, que ele olhou com horror.”

Os senhores podem imaginar a cena naturalmente…

“Também a rainha devia aparecer na janela, mas o rei a reteve e foi-se embora com ela.”

“Contudo, naquela mesma noite, ela soube de tudo e teve que conhecer claramente a sorte que para ela mesma estava guardada”.

A rainha percebeu nessa ocasião, que estava reservada para ela, a sorte que a princesa de Lamballe estava recebendo. É evidente.

Quem fazia isso com quem era menos, o que não faria com quem era mais?…

“Em seguida, a cabeça dela foi levada ao Palais Royal e ali se chamou o duque de Orléans, cunhado dela, e grão-mestre da maçonaria.

“Precisamente ele estava sentado à mesa com a sua nova concubina, a viúva Buffont. Friamente ele olhou a cabeça. O amigo do povo não se atreveu a repreender o assassinato de sua cunhada. Ele simplesmente disse: pobre mulher! Se ela tivesse seguido o meu exemplo, a sua cabeça não estava aí!”

Nem isso é verdade, porque ele foi guilhotinado e morto.

“Mas Mme Buffont – que é a “fassura” – caiu horrorizada sobre uma cadeira e cobriu seus olhos com as mãos, exclamando: Meu Deus, um dia levarão a minha cabeça do mesmo modo!”

É só do que esse gênero de mulher é capaz…

Uma dama da rainha, à qual também se levou a cabeça para ver, caiu desmaiada à vista da cabeça e morreu poucos dias depois por efeito do terror.

“Criados fiéis ao duque de Penthièvre, que era o sogro dela, que venerava sua nora por suas virtudes, perseguiam os assassinos com consideráveis somas de dinheiro no bolso e procuraram uma ocasião de comprar-lhes as caras relíquias. Eles conseguiram comprar a cabeça, a qual foi trancada num cofre de chumbo e enterrada na sepultura da família, em Dreux.

A notícia da horrenda morte de sua nora causou a morte do duque. Grande Deus, exclamou, para que servem a juventude, a formosura e a graça, se nem sequer já encontram mais favor diante do povo? Durante anos eu vivi com ela e nunca encontrei em sua alma um pensamento que não fosse pela rainha, para mim e para os pobres. E a esse anjo, puderam fazê-lo em pedaços!”

O duque de Bourbon-Penthièvre, que era o sogro dela, era um homem tão esmoler – ele era imensamente rico –, que durante a Revolução contra ele não ousaram fazer nada. E ele morreu tranquilamente na cama. Porque a popularidade dele era tal, que não houve meio de animar os assassinos a tocarem nele.

Esta princesa era companheira dele nessas doações, porque ela era viúva, e vivia em casa do sogro e participava da ação caritativa do sogro.

Os senhores veem, portanto, aqui, o espírito, a mentalidade da Revolução Francesa que é tal e qual da Revolução comunista na Rússia. E que fez exatamente com os descendentes do Tzar a mesmíssima coisa.

E é a mentalidade do comunismo na América do Sul. E os senhores ainda têm uma expressão horrorosa disso na figuração, em Santiago do Chile, da estátua de Che Guevara, com um fuzil, como quem diz: “Nós o glorificamos enquanto assassino, com o instrumento do crime na mão”. Esse é o pensamento expresso.

O que equivale a dizer, em outros termos, que quem se opuser ao comunismo no Chile, será morto. No Chile e por todas as outras partes…

Monumento a Che Guevara levantado em Santiago do Chile, em 1970, acima mencionado – vídeo no Youtube

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- A D V E R T Ê N C I A -
O presente texto é adaptação de transcrição de gravação de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira a sócios e cooperadores da TFP, mantendo portanto o estilo verbal, e não foi revisto pelo autor. Se o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira estivesse entre nós, certamente pediria que se colocasse explícita menção a sua filial disposição de retificar qualquer discrepância em relação ao Magistério da Igreja. É o que fazemos aqui constar, com suas próprias palavras, como homenagem a tão belo e constante estado de espírito: “Católico apostólico romano, o autor deste texto se submete com filial ardor ao ensinamento tradicional da Santa Igreja. Se, no entanto, por lapso, algo nele ocorra que não esteja conforme àquele ensinamento, desde já e categoricamente o rejeita”. As palavras “Revolução” e “Contra-Revolução”, são aqui empregadas no sentido que lhes dá o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu livro “Revolução e Contra-Revolução“, cuja primeira edição foi publicada no Nº 100 de “Catolicismo“, em abril de 1959.

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